para sempre

à semelhança da carraça na sua árvore, à qual, no entanto, a vida apenas tem para oferecer uma permanente hibernação. a pequena e feia carraça que confere ao corpo cor de chumbo a forma de uma bola, a fim de expor o mínimo de superfície ao mundo exterior; que alisa e endurece a pele para nada deixar filtrar e para que nada passe para o exterior. a carraça que se faz deliberadamente pequena e insignificante para que ninguém a veja nem a esmague. a carrça solitária, fechada e escondida na sua árvore, cega, surda e muda, e apenas ocupada durante anos a fio a farejar nos lugares à sua volta o sangue dos animais que passam e que jamais atingirá pelos seus próprios meios. a carraça podia deixar-se cair. podia deixar-se tombar no solo da floresta, e, apoiada nas suas minúsculas seis patas, arrastar-se uns milímetros em qualquer sentido e dispor-se a morrer debaixo de uma folha, o que não constituiria uma perda, Deus bem o sabe! contudo, a teimosa, obstinada e repugnante carraça permanece emboscada, vive e espera. espera até que um acaso extremamente improvável lhe traga o sangue de um animal à sua árvore. e é apenas nessa altura que ela sai da sua reserva, se deixa cair, se pega, morde e mergulha nesta carne desconhecida...